Trinta e sete

Tudo é muita coisa

Estava pensando sobre a fotografia que tirei, tentando fazer um trabalho. Em pouco tempo, me peguei pensando numa quantidade enorme de tópicos e de assuntos tangentes que eu sentia serem imprescindíveis. Logo pensei: como fazer o trabalho sem falar disso?

Não é verdade que o mundo me cansou, que não consigo mais olhar pro mundo e achar que ele é legal. É comum eu achar tudo válido, tudo legítimo, tudo pertinente.


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Juventude e maturidade

Esperam da juventude a sobriedade. a responsabilidade e a disciplina que vêm com a maturidade enquanto esperam dos maduros que mantenham acesa sempre a chama que move a juventude.

Por quê? Porque sem sobriedade, a chama empurra o jovem pro abismo. E sem vigor, tanta disciplina faz da maturidade, velhice.

Então me dei alguns minutos pra refletir sobre tudo isso.

E concluí que todos aqueles que conseguiram envelhecer mantendo a chama acesa com sobriedade estrelam filmes da Sessão da Tarde cujos nomes serão ignorados.


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Homenagem

Como precisava usar a unidade de disquete e como ela não queria funcionar, abri o computador pra ver se estava tudo certo. Obviamente, não estava. Corrigi. Assim que olhei pra unidade de CD, cujo botão já não mais funcionava, li 11 de junho de 2003.

Foram 6 anos com o mesmo computador. E foi pelo menos um ano com a unidade C: me dizendo que a memória virtual era insuficiente. “A gente pega amor na criação, né?”, me perguntou uma senhora que cria codornas, mas que eventualmente adota pombas carentes. Eu concordei que sim.

Meu velho computador me proporcionou, nesses 6 anos, uma coleção de 4000 músicas, uma lista de sites favoritos que eu frequento assiduamente, uma série de pequenas notas sobre diferentes artigos da internet, um álbum de papéis de parede e uma coleção de jogos vintage. Nada perdido.

Acho as máquinas fascinantes.


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Em cima da hora

Acredito que nos perdemos, por mais que não soubéssemos o caminho. Quando olhamos pros corpos seminus dos homens e das mulheres de lá, deixamos nos contagiar pelo sexo fácil sem manter o olho no relógio. Ou quando os beberrões de uma vila simpática nos ofereceram bebida barata, aceitamos e cambaleamos por décadas bêbados. Ou ainda quando as diversões eletrônicas nos capturaram em mundos impossíveis, permanecemos em seu cativeiro virtual sem esperar por liberdade. Ou quando dormimos pra passar a ressaca de uma noite de sexo e drogas. Ou quando perdemos o dia de comprar o panetone do Natal porque trabalhávamos demais por uma causa que não sabíamos exatamente o que era; e trabalhamos por ela dias inteiros.

Apesar de não sabermos o caminho, sabíamos do prazo. Ainda faltam algumas horas pra se esgotar —e é impreterível o prazo—, creio que ainda dá tempo se andarmos rápido.

— É, ainda dá tempo! Vamos por ali —e apontou pra esquerda como quem soubesse o caminho.
— Você tem certeza?
— Alguma. Que temos a perder?
— Muita coisa. Muita coisa mesmo.
— Não vale a pena arriscar? E vamos ficar parados?

Nosso prazo se escorria.

— A gente sabe que é bem fácil dar errado. A gente nem dormiu hoje, podemos nem aguentar andar. Fizemos tudo errado…

Tivémos tanto tempo. Não sabíamos o caminho, é verdade, mas deveríamos ter priorizado encontrá-lo. Transamos, bebemos, deixamos nos entorpecer, pegamos doenças venéreas, trabalhamos doentes e famintos, não comemos panetone no Natal, tratamos das doenças, curamos a ressaca e sentimos preguiça.

— Vamo logo…, ninguém vai cumprir o prazo pela gente.


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Sobre os gregos

Platão foi um dos primeiros a desconfiar de si próprio. Quando ele olhou, cheirou, tocou, ouviu e lambeu um vaso grego, perguntou-se se estaria experimentando o vaso ou só a sua sombra. Ele concluiu que experimentou só a sombra do objeto; a verdade, matéria pros sábios, estaria além da caverna e dos seus grilhões num mundo dolorosamente luminoso.

Platão foi um bobo, pensou. É, é verdade que no que dependesse dos nossos sentidos sem instrumentos, as bactérias continuariam invisíveis. No entanto, o microscópio não veio numa nave espacial com tecnologia extraterrestre como o micro-ondas; ele foi criação dos sentidos humanos, em alguma medida. Platão diria que foi criação da inteligência, da razão, e que é nela que devemos nos fiar pra suplantar as carências dos sentidos.

Platão foi um grande estúpido, pensou. O mundo que nos chega, sobre o qual atuamos com a nossa inteligência, não pode ser outro senão aquele que percebemos com os nossos carentes sentidos. O mundo de fora da caverna não existe. Logo, e aqui há uma grande elipse lógica que é fruto de uma torrente de pensamentos confusos, não faz sentido desconfiar dos nossos sentidos.

Não deveríamos desconfiar de nós mesmos (nossos sentidos), dos nossos desejos. Mas confrontados com nossos desejos assassinos, com nossos desejos incestuosos, podemos desejar que sumam pra nunca mais voltar.

Nem todos os desejos têm danos tão óbvios quanto os do assassinato ou do incesto, pensou. Pensou inconclusivamente por muito tempo, ponderando os danos como se fossem previsíveis e inevitáveis e angustiou-se por não conseguir satisfazer-se com nenhuma das escolhas que tinha à mão. Tudo que sentiu foi as sombras de um mundo mais verdadeiro, mas distante. Podia estar se distraindo tocando no piano uma música que lhe enchesse os dedos de prazer, mas não; estava pensando e, ao pensar, estava se libertando dos grilhões dessa terrível caverna.

Toda a angústia da grande merda em que vivia era na verdade um passo necessário em direção à luz. Platão foi um gênio, pensou.


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Fruta

Quando, então, a insatisfação atingiu um patamar muito elevado e passou a ocupar muito espaço, veio a sensação de sufocar-se. Como qualquer vida que se esforça pra continuar viva, caçou ar e água. O ar e a água tomaram o lugar da insatisfação e fizeram com que vicejasse ali um campo bonito e simbólico de alguma flor bonita e simbólica desabrochando, anunciando frutos bonitos e simbólicos.

Era um bonito e simbólico campo de maracujás, com bonitas flores de maracujá. Sem a pretensão de ser excessivamente etimológico, maracujá em inglês é fruta da paixão. Também é da paixão o maracujá em francês. Desconheço o significado de maracujá em tupi, donde vem a palavra em português. Sei dos inúmeros drinques cheios de maracujá e vodca que tomou dose após dose antes de se deixar inebriar pela paixão.


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Ansiedade

Deixou a barba sem fazer porque parecia mais charmoso, mas não tinha certeza e foi atrás de confirmação. Dono de uma timidez claustrofóbica, não abordava as pessoas na rua e se limitava apenas a fabular o que estariam pensando os homens e as mulheres. Que coisa suja, delícia, charmoso, esqueceu de comprar gilete? Se é que estariam mesmo olhando pra ele.

Vagou por muito tempo sem obter resposta, voltou pra casa e fez a barba. Foi atrás de confirmação.


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Um lamento breve

Assim que acordo, faço um esforço pra não esquecer de marcar na parede mais um traço. Era difícil no começo. Eram só alguns traços aqui e ali, espalhados desordenadamente, sem que se prestassem a serem contados. Eu me perguntava se tinha riscado as paredes à toa ou se havia naquilo mesmo um objetivo.
As manhãs pesam demais sobre a minha cabeça. Olho em volta embaçado procurando por Jonas, o hipopótamo, que falava tão amigavelmente comigo até então.  Vejo o rastro de lama que deixou ao sair sem me acordar: Jonas é um doce. Que preguiça de limpar o chão. E como eram poucos riscos no começo, eu até me perguntava se Jonas teria alguma coisa a ver com eles. Eventualmente, eu lembrava que eram meus riscos. Eu me lembrava até de quantos dias já tinham passado. No começo, eu contabilizava mesmo os dias.
A parede repleta de traços em todas as direções não me permite mais esquecer, mas algum esforço ainda é necessário porque é preciso levantar o peso da manhã, superar a névoa espessa que me assusta, que me apaga o chão. Como se eu soubesse, todas as manhãs, que ao saltar da cama meus pés vão atravessar a névoa só pra encontrar o abismo do dia que me espera; que o dia será essa terrível queda, cansativa e sonolenta queda. É uma pena que eu me esqueça das verdades matutinas depois do almoço porque toda vez que me recupero dessa amnésia necessária é um choque. Minhas manhãs são um choque.
Já não sei quantos dias faz. Mas se um dia eu me importar em contar, lá estão todas as rugas na minha parede que cada dia fica mais cheia. Talvez eu esteja esperando pelo dia em que Jonas vai surpreender-se com a quantidade de riscos e vai se arrepender de sair fininho, meu hipopótamo, que vai se sentir mal por ter me deixado em sonho na lama.


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Dois pés esquerdos

— Aquele — disse, apontando prum par de sapatos muito simples, mas que tinha achado simpático. — Me vê dois pares.
Sentou-se impacientemente num lugar isolado da loja enquanto o atendente subia pra buscar as caixas. Chacoalhava as pernas, olhava em volta. Uma mãe e sua criança sentaram-se ao lado. Como se farejasse angústia, a criança mirava nos seus olhos insistentemente, teria o dedão na boca, chupando. Ao notar que chupava o dedo, a mãe ralharia com a criança que espernearia, derrubando várias caixas de sapato empilhadas.
— Que horror essas crianças mimadas — pensaria.
Mas nada disso aconteceu. A criança continuou olhando insistentemente nos seus olhos sem dizer palavra.
— Que horror essas crianças mimadas — pensou.
Tirou os dois pares de sapato da caixa, tremendo. À medida que ia descalçando os tênis que vestia, a curiosidade do atendente passava ao deslumbramento, ao pavor e então ao puro desconcerto. Tirou um pé esquerdo do sapato, vestiu-o. Em seguida, aos berros da criança insistente:
— Mãe, mãe! Mãe! Olha! São dois pés esquerdos!
E vestiu o outro pé esquerdo.
Não podia dançar, não sabia sambar nem valsear. Levantou-se pendendo pro lado esquerdo, como a Torre de Pisa na iminência da queda. Há algo de belo em como consegue se sustentar, é verdade. Caminhou um pouco com os novos sapatos, deu uma olhada no espelho. O atendente continuou boquiaberto, a criança riu. Deu mais alguns passos com o novo sapato, os pés se enroscaram, as pernas se embananaram, tentou se equilibrar.
Caiu derrubando várias caixas de sapato empilhadas.


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Sketch No. 1

SKETCH “Café”

INT. SALA DE ESPERA – DIA

Sala comum, com só uma porta e preferecialmente sem janelas. DUAS POLTRONAS, uma de frente pra outra. Como entre as duas poltronas, numa parede ao fundo sem janelas, lê-se “SALA DE ESPERA” numa PLACA.

Sentada na POLTRONA ESQUERDA, MARCELA, entre 20 e 30 anos, vestida e maquiada casualmente. Suas pernas descruzadas, seu semblante descontraído. Evidentemente, Marcela já conhece TADEU, entre 20 e 30 anos, vestido casualmente, sentado na POLTRONA DIREITA, há muito tempo. (mais…)


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