Causo da tapioca

Várias CPIs estão se passando ao mesmo tempo, não acompanho nenhuma. Hoje li sobre essa dos cartões corporativos no jornal, divertidíssima. Um tal ministro pagou com o cartão corporativo, leia-se: dinheiro público, R$8,30 numa tapioca.

Muitas considerações podem ser feitas, antes de tudo, a respeito do preço dessa que deve ser uma excepcionalmente maravilhosa tapioca. Talvez fosse doce, talvez fosse trufada. Ou salgada seria. Devia ser feita numa frigideira de teflon sobrecomum, com uma massa minusciosamente peneirada, o côco ralado na hora. E o gosto seria idêntico ao de todas das tias baianas, que vendem daquelas com leite condensado (Nestlé!) a módicos R$1,50.

À parte isso, um outro Sr. ministro declarou que é absurdo tanto escândalo por causa de uma tapioca. (more…)

2 comments 28 Março 2008

Dislexia sintático-ortográfica

Erros ortográficos ou gramaticais são engraçados. Alguns mais que os outros. Mas a partir do momento em que o primeiro erro é notado, vários outros pipocam dislexicamente, esquipáticos, neuróticos (no meu caso).

Comentei esse post, que é sobre um erro de português e que continha ironicamente um outro erro. Destaquei-o prontamente no meu comentário, dizendo sem notar quão “absudarmente” hilário era.

Ah, o poder hiperbólico da neurose. Roll snowball, roll.

Add comment 19 Março 2008

Sketch No. 1

SKETCH “Café”

INT. SALA DE ESPERA - DIA

Sala comum, com só uma porta e preferecialmente sem janelas. DUAS POLTRONAS, uma de frente pra outra. Como entre as duas poltronas, numa parede ao fundo sem janelas, lê-se “SALA DE ESPERA” numa PLACA.

Sentada na POLTRONA ESQUERDA, MARCELA, entre 20 e 30 anos, vestida e maquiada casualmente. Suas pernas descruzadas, seu semblante descontraído. Evidentemente, Marcela já conhece TADEU, entre 20 e 30 anos, vestido casualmente, sentado na POLTRONA DIREITA, há muito tempo. (more…)

3 comments 19 Março 2008

Música-tema

Então,

I know what I’ve been told
You gotta work to feed the soul
But I can’t do this all on my own
No, I’m no superman
I’m no superman

… é o tipo de refrão singelo e grudento, mas que me parece tão certo: ao acordar e caçar emprego nos jornais e em outros sites das mais diferentes empresas, ao mandar e-mails e não receber respostas, ao tentar escrever essa ou aquela peça-por-terminar. E é tema de Scrubs, que é bom. Tão bom.

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Descoberta

Só uma sensação: de que é agora. Porque, à medida que a semana passada passava, eu percebi que toda aquela estranheza angustiante é mesmo liberdade. E, enfim, achei que valia a pena publicar a descoberta.

1 comment 18 Março 2008

Península

Ístmo de tempo, toda península de estagnação: momentos estreitos se desdobram sobre o mar, querem se destacar, se desdobram a partir de continentes de fatos imensos. Até que chegam rápido as notícias, quase instaneamente; mas fraquejam pelo caminho e da morte de alguém importante à conjuntura política global, das mudanças climáticas, do terremoto que destruiu a cidade, se escuta só o eco inócuo. Morreu, mudou, caiu.

Átimo de espaço, alguns minutos de terra pedalando a uma velocidade razoável. Pedalamos até o continente, voltamos sabendo quem morreu, o que mudou, o que caiu. Não querem saber, não querem? Suprimentos pra 20 minutos de viagem, toda a sorte de analgésicos. Se chover, se nevar, se ventar: vamos então em três, nem que volte só um.

Nos receberam com sorrisos, vimos fotos nos jornais de pessoas que não conhecíamos. Gráficos complexos sobre coisas que não entendíamos. E prédios sobre casas sobre postes sobre avenidas partidas ao meio. Grandiosos, simpáticos, mas separados por 20 minutos já falavam outra língua. Acenávamos, acenávamos, acenávamos de cima de nossas bicicletas. E acenaram de volta. Convidamos todos prum grande chá qualquer dia desses. Que dia maravilhoso vai ser quando couber um continente na península. Que dia impossível será.

1 comment 13 Março 2008

Interdição por 15 dias

Tá todo mundo falando do causo da minissérie da Globo, o do beijo gay do Guilherme Weber no Bruno Garcia, quando há algo de muito mais interessante pra veicular.

Estou sem internet por cerca de 15 dias devido a uma gravíssima e crônica (porque antiga) intoxicação por ftalatos. Nem sei quais são os sintomas, mas tenho todos.

2 comments 28 Fevereiro 2008

Bigode

O bigode faz o homem. Um homem dos anos 70. Estilo, classe, pinta de intelectual britânico, atestado incontestável de maturidade com um leve toque de ironia, deboche, desbunde e irreverência. Longo ah: ahhhhhhhhhhhhhhhhhh. Como pode ser doce o patético!

1 comment 25 Fevereiro 2008

Primeira sugestão de morte acidental provocada por limpador multi-uso

J. F. K., dona de casa, 53a., branca, 1,60m, 70kg, hipertensa, diabética sobe os pequeníssimos degraus da igualmente mínuscula escada que a eleva de maneira a satisfatoriamente polir os limpos vidros da janela. V., um limpador multi-uso de marca qualquer, é colocado logo ao lado da escada.

Infelizmente, não é um bom dia para J. F. K.. A tampa de V., o limpador multi-uso, estava aberta com o bico dosador acidentalmente posicionado na altura da aorta de J. F. K. quando a pobre coitada caiu do 3º degrau da escadinha.

Morte acidental provocada por limpador multi-uso, porque não fosse o bico dosador assassino, hoje J. F. K. estaria na sua cama com a bacia quebrada, ai, mas viva! Viva!

Add comment 21 Fevereiro 2008

Lápis

Depois de um bom tempo apontando o lápis, eu percebi que a ponta sempre quebrava justamente quando a sentia mais afiada. Quanto grafite podre sob a madeira. Até que o lápis acaba. Ou haveria um meio termo no qual eu deveria parar. Imagino que todo grafite é, potencialmente, um diamante. Enfim, não deve haver muita satisfação em ser meio-afiado quando se poderia ser um diamante.

Não sei quanto de verdade há num lápis. Nem até que ponto diamante e grafite são a mesma coisa. Sempre haverá algo por lapidar, por apontar. Até que o lápis se acabe.

Como ninguém queria se sentir culpado por jogar no lixo um monte de serragem de diamante (potencialmente), inventaram a tinta, a caneta, a máquina de escrever, o teclado PS2, o editor de textos e o PDF. Eu entendo que diamantes são raros. Que são lindos. Que são, além disso, resistentes. Que são bons pra se exibir: eu, que fiz do lápis um diamante. Que são inúteis, especialmente inúteis –à parte o uso altamente especializado em algumas máquinas que cortam algumas coisas ou que fundem outras, em que não passam de brilhantes coadjuvantes.

A eternidade coadjuvante do diamante, a morte prodigiosa do lápis.

E a supremacia indiscutível da caneta.

Add comment 21 Fevereiro 2008

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